prosa poética…

o silêncio e o esquecimento andam perdidos no tempo,num solitário jardim que é o teu corpo e o meu, terra de aromas que retorna de quando em quando a sentir o alfabeto dos pássaros, o sorriso das flores que chega aos nossos olhos, a luz das estrelas que nos enlaça, e o sol com lânguidos fulgores que nos tatua a pele …passam por nós andorinhas com acordes de violino no ar puro da manhã ainda adormecida, chega em nós o outono com uma pincelada de sol, sorrimos à luz que nos acaricia e às nossas mãos chega o meio da tarde, porque o meio dia já se foi numa rajada de vento, assim se define o que existe entre a felicidade e a tristeza, amo-te mesmo no silêncio e esquecimento, e sonho-te na inteira juventude, sonho este que é remota história, velho sonho de ébrias estrelas que brilharão no adeus à tarde, enquanto os arvoredos levarão nossos medos, deterão o tempo e desdobrarão a presença da cor no nosso amor…serás o último pássaro levado nas ondas do vento até às sombras das ramas, e eu esperarei por ti entre os abetos para ouvir-te dizer, que para sempre me amas…

natalianuno

pequena prosa poética…

trago as emoções abrigadas no silêncio da noite, desfolhados os sonhos,  o amor é agora utopia onde eu própria me abrigo…fico cada vez mais distante do passado, é o tempo que me arremessa e me obriga a dar mais um passo, me arma o laço, e que anda eternamente preso a mim,  deixa-me como o sol com medo da noite…e quando cresce a esperança, logo meu pensar fica torpe,  esforça-se por alcançar de novo o sonho e criar o poema esquecido que habita em mim desesperançado, embora com as palavras por perto eu não sei o que escrever ao certo, para escrever necessito de fantasias, faço poesias rainhas, mas ainda que fantasiadas, são verdadeiramente minhas…escrevo sobre fragmentos da vida, noite fora até de madrugada, às vezes com a voz embargada, e um grito na garganta, e a poesia me ouve calada e olha meu rosto que morreu, enquanto no céu a última estrela nasceu…


natália nuno

pequena prosa poética…

há uma neblina a circundar-te o olhar, a luz está longe e no rosto há girassóis em fim de verão a morrer de cansados, viver um pouco mais será um caminho por descobrir, encontrar algum consolo, deixar o tempo cair por terra, seduzir o sonho e tê-lo por companhia para que arda tudo o que ainda arde dentro dele, e se à noite vier a solidão que dói, recorda a criança correndo pelos teus anos, ávida de esperança, tão livre no seu vôo…faz renascer em ti o universo e cria mais um verso…é vida a Poesia.

natalia nuno

pequena prosa poética…

ainda hoje os meus sonhos são de assombro e a claridade ainda resiste nos meus olhos como se fosse criança, essa criança que acompanha com seu carinho e amor o meu caminho, sempre com a palavra necessária e certa, a esperança a felicidade e a alegria que um dia foi nossa, após tanta distância unimo-nos, envolvemo-nos em sonhos azuis e escapamo-nos, numa embriaguês onde tudo é íntimo…

natalia nuno

dormência dos sentidos…

este cansaço nos olhos
este tamanho emurchecer
resto de farrapos, escolhos
caixa de medos a que me entrego sem querer,
murcham comigo as rosas
os sonhos, eles que eram mariposas
já não voam,
exausta, oiço vozes no silêncio da minha surdez
quem sabe sejam os ventos que me trazem os medos
à memória que se despenhou de vez.
tudo agora é despegado de razão
tudo é, coisa nenhuma
o vazio da alma o adormecer do coração
a dormência dos sentidos
nas noites que vão passando uma a uma
a violência do tempo, é ferida que não cura
moldou-me como o mar molda a areia
com batida que sempre dura
fui menina de sonhos desde que nasci
e por sorte serei até à morte
sei ao que vim, tanto me dei
e tão pouco a mim!
sou agora um outono desfeito
à espera que a longa noite chegue
com a solidão dum grande mar
à espera da manhã que não virá
nada sou nada serei, minha voz se calará
e mesmo assim de forma estranha
esta saudade que me acompanha
para sempre ficará
na solidão do que escrevo.

natalia nuno

o meu entardecer…

a primavera vestiu os laranjais
floriu os campos, os silvados
levou para longe os meus ais
abriu as margaridas, abriu as rosas,  deu flor ao alecrim
verdes ficaram as sementeiras, cantam os rouxinóis
meus sonhos calados
e a vida foge de mim…
quem vive vai-se perdendo entre o tudo e o nada,
caminha a sentir-se desesperada
a primavera já não mitiga a amargura
apenas nos olha com ternura
o que a mão de Deus traçou tudo renova,
menos a vida que das mãos voou,
entreabrem-se asas na esperança d’ ainda voar
e doces surgem lembranças, como madressilvas
perfumadas… a quem o orvalho mata a sede,
mas a esperança já se perde.

e nas ramagens verdes o vento descansa
para voltar de novo à sua dança
tão breve como foi a vida,
sendo eu menina, sou agora
como flor sem sol nascida

os pensamentos vão e vêm
à plenitude da minha solidão
trazem-me notícias d’outras primaveras
que doces ainda me fazem sonhar
trazendo o sol antigo e meu pensamento dourar
dou graças por este entardecer
completo-me na natureza bebo dela o som e o sabor
e e neste viver, nesta beleza que encontro a harmonia
sento-me aqui ao pé da eternidade, a sentir o coração
a pulsar de saudade, ditosa, a primavera é
meu perene lugar………………………..

natalia nuno

suspendo-me nos silêncios

nesta atmosfera tão sombria do entardecer
agita-se a folhagem batendo-me no rosto
é o vento querendo-me dizer
da profundidade da saudade
que me fere o coração.
as folhas agitadas, balouçadas
como o meu pensamento,
os sentimentos divididos, gotas de água,
temporais de mágoa
gemidos do vento que trazem o eco do mar

– deito a cabeça no teu colo
e não quero mais a mim regressar.

esta tarde recaio na melancolia
desalojada de sentimento
carrego nos ombros o cinzento deste dia
ponho o olhar no poente
é evidente minha solidão
é como se estivesse esquecida
desses dias que tão longe vão.

olho a terra molhada, lágrimas
que caem do céu…
faz-se noite, é a despedida e eu,
penso como é monótona a vida…
mas, talvez tudo seja ilusão
meu corpo vai bebendo da saudade,
vou perdendo chão e trancando-me
na solidão, para esquecer a realidade.

natalia nuno

livro que ninguém leu…

o coração vive de ilusão
embalado de nostalgia
como uma vela que se apaga
assim passa mais um dia,
e quando o olhar se alaga
faz lembrar uma tempestade de verdade,
que trespassa a memória
corrói as entranhas até não sentir
mais nada, ficam os sonhos na almofada
e alastra um gemido no escuro
depois, apenas o respirar no silêncio duro
se escuta,
perdidas as esperanças, perdida a luta.

sou agora livro antigo, ninguém leu
um oásis de memórias que adormeceu
não há saída não
meu coração vive de ilusão
apagou-se tudo da memória, até os lírios
nas imediações me olham tristes,
a cada entardecer debruço-me nos lambris
das janelas, pousam as andorinhas em frente
espiam-me como se soubessem de mim e eu delas
há vasos vazios nas escadas, vidros partidos
cortinas desbotadas e portas sem fechadura
que importa, quem lá vivia morreu d’amargura

o céu hoje é mais azul, azul é tranquilidade
dia em que se envelhece ou morre de saudade
pensei-me menina com sonhos e risos
que não consentem partir, mas e
o medo da morte, tenho medo de dormir,
medo até das folhas agitadas pelo vento
tenho medo, que meu céu fique cinzento.

arrumo os medos e as lembranças que me ferem
levanto-me mais uma vez,
ainda há dias de alegrias invento-me
menina nos teus braços,

natália nuno