brindo à vida nesta manhã de certo modo aprazível,

cruzam-se pássaros na memória,

ouço o vento por entre as árvores,

nem tudo está perdido, percorri, caminhei,

voltei a recordar a vida e a distância

com a ternura deste inverno

que brota vida à minha volta…

 

ntalia nunp

cativa flor…

e o dia cinzento dita-me em silêncio a nostalgia,

assoma caprichoso, trazendo com ele

o rancor da noite,

quem sabe amanhã outro dia

com uma ternura silenciosa volte o sol…

e com ele a luminosidade que fui

já que a minha alma navega

na luz do orvalho nascente

ou na cintilação dos astros

e o meu coração é o piar insistente

ou o canto duma calhandra

e eu sou a semente levada p’lo vento

da montanha,

caída no esquecimento

abre-se o firmamento

voam minhas estrofes por entre

madressilvas e giestas

e eu sou cativa flor

de ti…meu amor!

 

natalia nuno

dói-lhe a recordação…

tende seu sonho

como se tende o pão

e deixa a alma a navegar 

em ondas de espuma

mas dói-lhe a recordação

de tudo e de coisa alguma,

sorri a menina das tranças

dependurada no baloiço

de saia rodada ao vento

a menina que ainda oiço,

na brisa do arvoredo

num quimérico lamento.

 

já o sonho se esfuma

gargalhadas caem ao chão

acata o destino e em suma;

dói-lhe a recordação…

uma linha azul côr de céu

na palma da sua mão

mistério que aí se esconde

rastos ainda não escritos

que a vão levando pra onde

vai vivendo de seus mitos…

 

natalia nuno

 

 

teço sonhos…

há silêncio no meu peito

a noite vai madura

e há luar que

o meu rosto emoldura

trago a esperança a madrugar

na esperança de ver-te chegar

a saudade cresce de mansinho

pressinto-te a  cada hora

a estreitar-me nos teus braços

pela noite fora…com carinho

então sou flor aberta

aroma que a ti se oferta.

quando o luar se esconder

vou-te dizer

– és tudo o que a vida tem

pra me oferecer!

 

natalia nuno

esta dor que não sara…

inquietante poema de paredes brancas

onde procuro o rosto que não encontro

poema onde me sinto borboleta ferida

levada por um vento que não pára,

poema onde consta que já fui

e hoje é dor que não sara

o que sobra duma vida

 

poema onde me deixo pensativa

onde dou a mão à dor

pela tristeza acometida…

poema duma dor que sopra fina

e me traz a saudade de menina

e do tempo que agora apoucou

mal ela se descuidou

já tudo é passado

só a saudade a meu lado

me faz companhia

tal como esta poesia

que deixo no umbral do meu sonho.

 

natalia nuno

fito a folha…

o coração pulsa sobressaltado

sempre que lembro o passado

fito a folha em branco, o tempo aborrece

já nada acontece

a vida é apenas um segundo

deixo-me no meu recolhimento

profundo …

nesta já longa jornada

há um oceano a jorrar em mim

de saudade,

trago a vida presa a nada,

e esta sede que não passa

sinto-me assim saudosa

parte de mim deseja gritar

de contentamento

outra me desafia à solidão

e um mau pressentimento

se instala … no coração

que insensato,

na ilusão bate

forte… fugindo à morte.

 

natália nuno

como tudo pôde mudar um dia?…

à tardinha a terra é morna

rejubila o meu coração de outono

à memória sempre torna

aquele aroma da infância

onde a sonhar me abandono

trago a ânsia das estrelas

o delírio de voar

dou-me conta dos sentimentos

da saudade que não sei calar.

 

a vida outrora me dava alegria

como pôde tudo mudar um dia?

na memória sobrevive o que amamos

o que trazemos ainda no coração

o rio, o loureiro, o carreiro

o nosso chão…

cresceu o trigo, cheira a pão

lá vou eu criança levada p’la mão

cheiro a fumo, o fogo é lento

vejo as chamas a dançar

cresce-me um sorriso

afinal nada caíu no esquecimento.

 

natalia nuno

idade sem data…

com laço de seda cingi a cintura
fiquei menina da brincadeira
ouvi as vizinhas dizer com ternura
sai à mãe, quer queira ou não queira

debruço-me à janela, o mundo é meu
ouvindo as pombas num arrulho louco
já se põe o sol, escurece o céu
e os lírios vão crescendo, pouco a pouco

mil vezes se repete minha imagem
nas águas do rio que corre por perto
a mágoa vive o sorriso está de passagem
já nada regressa é o futuro incerto

surge a dama da noite, toda claridade
adormecem as margaridas no monte
preciso de afecto mas vem a saudade
que percorre hoje e amanhã m’ horizonte

e as bonecas de trapo sorriem pra mim
choram os salgueiros a sua solidão
com as tílias em pranto vão chorando assim
mas a mágoa é minha, consome-me em vão

já não sou menina sou mulher feita
sou raiz funda agarrada a este chão
a palavra é minha garra que quero perfeita
só o tempo me traz profunda solidão

pode a saudade gritar-me na garganta
pode o vento voltar quedando-se no jardim
narcisos deixarei em poesia…tanta!
que também restará saudade de mim.

natália nuno

pássaro louco…

deixo-me a fingir que tudo é verdade
como o beijo que me dás ao amanhecer
quando os teus braços me acolhem e afagam
e eu me sinto florescida, a renascer
entra o sol pela janela em rodopio
e é ali a certeza de tudo certo,
depois o quarto vazio,
da tua presença
deserto…
deixo-me na ilusão de que é verdade
e o pensamento parece um mar encapelado
e lá volta de novo a saudade
e ali se senta a meu lado
assim me sinto na distância
pássaro louco em voo
nun céu de bonança.

deixo-me nos sonhos infantis
e meus pensamentos rasgam o espaço
e a memória como um bailado me deixa feliz
arredando pedras do caminho por onde passo.

e o sonho deixa-me menina rica de alegria
e folgança,
tal como em criança…

natalia nuno

meu coração é um baú…

Cada palavra pode desplotar um feitiço
Ou o descontrolo de emoções
Anda o meu coração em derriço
Vivendo de ilusões.
Flutuam em mim acordes musicais
Meu coração é um baú
De onde a saudade não sai mais
Com a vida me apaziguo.

Dormito, alheia ao mundo
Já esmorece a luz do dia
Uma coruja algures piou
Negrume celeste profundo
A cor com que minha alma ficou.
Encostada na solidão…
À memória surgiu a infância
Saboreio em lentidão
Tudo o que para mim tem importância.

E é regalo aos meus sentidos
É então que as palavras me escorrem p’los dedos
E escrevo sobre tudo e sobre nada
Meus pensamentos são veleiros perdidos
por mares onde se escondem segredos
e sempre se solta uma lágrima
p’lo rosto derramada.

Mas volto sempre ao meu sonho de poeta
Com desejo da palavra continuada
Neste caminho a percorrer
É a minha meta,
nascer de novo se tiver que ser!
Para morrer nos teus olhos afogada.

natalia nuno