há coisas que doem…

morre o sol na minha face

acabou-lhe com o sorriso em botão,

ensombrecem os verdes do olhar

quando à noite na escuridão

nem teu abraço, para m’ enlaçar

este anseio que cresce e se apoderade mim,

é como febre que queima

e que a todo o momento teima

sussurrar-me como uma prece…

o teu corpo ainda tem asas!

e logo a saudade aparece

e se cruza no meu peito,

tudo volta a ser meu por direito

o sol nasce a meio da noite

coloco o sonho na almofada

e quero por ti ser amada… 

mas a vida sem sonhar… deu em nada! 

natalia nuno

sem dó…

meus ouvidos são inúteis

já nem ouvem o correr da fonte

mas, meus olhos ainda olham

o sol a esconder-se no horizonte

o tempo despedaçou-me o rosto

sem dó nem piedade

sinto a melancolia p’la tarde ao sol-posto

e a emoção em mim se agita

desperta então a saudade

e desgovernada em meu peito gravita.

natália nuno

dantes…

havia flores no meu olhar

que o tempo amareleceu

ingénuas, em delírio

sempre a sonhar

na boca, cantigas tristes

que as estrelas escutavam

hoje nem os olhos, nem nem o luar

nem o sol que despontava

nem os sonhos que ao coração chegavam

nada, nada tenho pra me alegrar.

natalia nuno

doce lembrança…

nosso amor era feito de pudor
era assim até de madrugada,
e nos teus braços eu era a flor
que o aroma em ti deixava.
éramos novos, e sem mágoas
trazíamos primavera no olhar
éramos fonte de onde as águas
brilhavam em noite de luar

soltavam as borboletas d’ amor
docemente ao amor m’entregava
feita mulher, da infância o candor
c’ riso de criança me abandonava
flor, assim desfolhei suavemente
nesse jardim que é o passado
hoje sou imensa noite ardente,
deixo ainda nosso amor ao teu cuidado

natália nuno
rosafogo

queixume saudoso…

comove-se o olhar fica perdido
molhado de chorar e já vencido
caem as geadas no rosto
e o sol já no poente, é posto.
recolhem-se os pássaros enquanto
há folhas nos ramos
e, recolhemo-nos nós enquanto
é tempo e nos amamos…
o tempo vai passando e atormenta
a dor dói, o coração sofre, e o olhar
lamenta…
hoje o vento faz-me companhia
num chorar triste, nem ele traz alegria,
tem vindo a crescer p’la tarde acima
com o destino de entrar-me pela janela
o meu destino é encontrar uma rima
para que ele fale dela,
invento e visto-me de memórias
caminho neste entardecer
e lembro tudo o que ficou por dizer.

os meus olhos entretêm-se a olhar
mesmo sem saírem daqui
estão sempre em outro lugar,
há tardes de Setembro em que o pensamento
me embala o coração,
basta-me um pouco de ilusão
e a cada pensamento, invento
um sonho mais formoso, que valha a pena
e o coração resiste mais e mais
a este queixume saudoso, a que
me dou neste poema…

natalia nuno

meu pé descalço

vamos passando os dias a sonhar, vamo-nos rindo nos momentos de ilusão, e, há momentos em que cismamos que havemos de ser felizes, é que nem sempre a felicidade está presente… então, tomei ao tempo um tempo para sonhar, sem deixar que ele perturbe os meus sentidos…e na poesia quero soltar o que me vai na alma…minha história é tão antiga que algumas coisas já esvaziei da memória, sou então como uma jarra antiga onde as flores foram morrendo enquanto o pó foi crescendo sobre os móveis, agora tenho os cabelos brancos e a solidão me pegou. Mas, neste tempo que tomei ao tempo vou arrumando sentimentos e deixo que a tarde caia sobre meu rosto, tomo o atalho do meu coração que me leva às lembranças, revisito os cantos da minha aldeia e sinto-me uma andorinha acabada de chegar, trazendo nos olhos a primavera, estou descalça para não chegar tarde que o sol está a cair, já avisto o vermelho dos telhados, ouço o eco dos sinos e ao longe o verde dos frondosos salgueiros da beira rio…já ouço o cão ladrar dando sinal que alguém está para chegar, ele que foi testemunha da minha alegria de criança, lá está o portão que ainda chora o meu adeus, não sei se entre!? É que as paredes do meu quarto devem ter humidade, o tempo não se esquece de fazer danos, mas a saudade obriga-me a entrar, dou volta à chave, lá está a minha cama estreita nela já ninguém se deita, abro a janela espreito por ela o rio que canta a mesma melodia… e ele me olha como se visse ainda a menina esguia que nas águas se banhava e lá em baixo a horta que eu pensava estar morta de sede, e qual não é minha surpresa… meu pai a regar, olhou-me, e afagando-me com o olhar deixou-me saudosa no tempo…

natalia nuno
rosafogo
do meu blog «Memórias de mim»

suspendo-me nos silêncios

nesta atmosfera tão sombria do entardecer
agita-se a folhagem batendo-me no rosto
é o vento querendo-me dizer
da profundidade da saudade
que me fere o coração.
as folhas agitadas, balouçadas
como o meu pensamento,
os sentimentos divididos, gotas de água,
temporais de mágoa
gemidos do vento que trazem o eco do mar

– deito a cabeça no teu colo
e não quero mais a mim regressar.

esta tarde recaio na melancolia
desalojada de sentimento
carrego nos ombros o cinzento deste dia
ponho o olhar no poente
é evidente minha solidão
é como se estivesse esquecida
desses dias que tão longe vão.

olho a terra molhada, lágrimas
que caem do céu…
faz-se noite, é a despedida e eu,
penso como é monótona a vida…
mas, talvez tudo seja ilusão
meu corpo vai bebendo da saudade,
vou perdendo chão e trancando-me
na solidão, para esquecer a realidade.

natalia nuno

cativa flor…

e o dia cinzento dita-me em silêncio a nostalgia,

assoma caprichoso, trazendo com ele

o rancor da noite,

quem sabe amanhã outro dia

com uma ternura silenciosa volte o sol…

e com ele a luminosidade que fui

já que a minha alma navega

na luz do orvalho nascente

ou na cintilação dos astros

e o meu coração é o piar insistente

ou o canto duma calhandra

e eu sou a semente levada p’lo vento

da montanha,

caída no esquecimento

abre-se o firmamento

voam minhas estrofes por entre

madressilvas e giestas

e eu sou cativa flor

de ti…meu amor!

 

natalia nuno

evoco hoje lembranças…

evoco hoje lembranças
lavava-me na água fresca do rio
num tempo cheio de futuro
nunca com o coração vazio
eu sonhava e aguardava
nesse mundo encantado
que era meu refúgio
a ludibriar as horas ía sonhando
pregada ao meu chão embalada na ilusão
nas águas do remanso
e o rio lavava a minha nostalgia
e pensava no que a vida me escondia
os loureiros dançavam ao som do assobiar do vento
trazia a luz do sol no olhar
era um pouco bravia e resposta sempre havia
ao mesmo tempo doce como mel que escorria
o rio me alvoroçava
mas também me acalmava
era uma ave colorida, ora pousada
ora desaparecida
sonhos sem conta, cabeça ao sol
escaldante, e a forma graciosa como me movia
ao passar, céu e terra estremecia
lembrar, é acariciar a alma
e um prazer que me sacia
tudo o resto é estonteio ao meu redor
só se apaga a memória, senão houve amor

natália nuno

prosa poética…

deixa-me o sabor da tua boca, acaricia meu rosto fatigado na tarde lenta em que as minhas mãos tecem palavras de loucura, como se rezassem!…olha-me com espanto, como se eu continuasse a ser o teu encanto, nua ou vestida percorre a minha pele, poro a poro, afunda-me no teu peito com aquele jeito, com que eu sempre coro…não me deixes neste silêncio estranho, ou no vendaval onde me dobro para não quebrar, o tempo cruzou-se comigo nestas longas caminhadas pejadas de partidas e chegadas, deixou sinais que não posso esquecer e restos de esperanças que quero reter…há lembranças que se vão desvanecendo tal como a tarde, percorre-me o sonho na claridade do teu olhar, onde a felicidade e a ternura são canção de embalar…os meus dedos de menina escrevem umas linhas de amor, e nas tuas mãos, esconde-se a lua vestida a rigor…

natalia nuno