este poema…

neste poema há o rosto

duma mulher triste

nas palavras abriga-se assustada

tem a idade dum tempo sem idade

e o bocejar cinzento

quando o pensamento se passeia

pelos labirintos da saudade.

neste poema há ainda outros sinais

palavras surdas de consoantes e vogais

que ora são rios de mel

ora são agitações e fel…

este poema é feito

de cicatrizes, rugas e sonhos

e insónias que não deixam adormecer

encantos e desencantos

memórias de momentos de prazer

de ternura, de dureza e insensatez

de palavras surdas providas

da minha surdez…

palavras encostadas aos meus lábios

alheias ao tempo

surgem em ventos de desejo

recordando o tempo que me agasalhou

outrora…

e eu acalento o sonho…hora a hora…

natalia nuno

são rosas que trago na mão…

abro-te o meu coração

com transparente lealdade.

meus olhos em nua claridade

se abrindo,

sinto o impulso do sangue

em tão grande ansiedade

sou amor em dávida plena

ascendendo em felicidade

trago um sorriso derramado

sou outono que não morre,

trago o aroma dos frutos maduros

e a sede dos sonhos em mim corre.

apesar dos dias duros

no  coração há ternura

e há nele pássaro ardente

e um grande amor que perdura

no coração permanentemente

há cascatas de amor pra dar-te

nele um rasto de primavera

de amendoeiras brancas

que me protegem do esquecimento

onde o tempo range sem parar

e de tanto recordar-te

a vida foge…

como um sonho perdido para sempre

ou ventura que passou ao nosso lado

fica o coração como um poema rasgado

 a renascer em mim, até ao fim.

natalia nuno

minha ilusão é uma janela…

Minha ilusão é velha
como os alámos da minha rua
quando a lua neles se espelha
se amarra a minha alma na tua.
Meu rosto na noite enrugou
é esta a verdade,
até o pranto rolou!
Deus queira que a saudade
seja a razão de viver,
e lágrimas dos olhos arrancar.

Se a dor ao coração assomar
defendo-me com firmeza
se essa má hora vier
eu terei a certeza.
e coragem tanta!
Que em mim não vai caber.

Minha ilusão é uma janela
donde avisto meus anos mortos
passou a vida e eu por ela
trago no passado os olhos postos.

O que digo é sim ou não,
ou talvez apenas.
Talvez sim,
meu pensamento em rebelião
Ou então não!
são apenas minhas penas.
Ou loucura?
Mas meus olhos se afogam
em ternura,
lembrando pés descalços
em serena liberdade, num
regato claro de saudade.
natalia nuno

amor feito desejo…

Mas é pura e serena esta alegria
em que me deixo perder!
Vivo e alguma coisa embriaga o ar
Aqui, ali, a esperança, e sempre a fé,
não deixo de reconhecer
que ando agora mais devagar.
Posso olhar-me!
Alegrar-me…
Com olhos espantados
e a interrogação na boca,
Depois de tantos passos dados,
Ainda confio e estendo os braços á vida,
e vivo-a, louca.
Como a água viva que canta e é sempre
jovem!

Reconheço-me forte
Avanço por entre a multidão
com o coração a pulsar.
Acolho o amor e com sorte,
me entrego enlouquecida,
ao amor a te amar.
Meu peito bate lento,
duma forma perfeita.
Não há solidão nem esquecimento,
quando a lua cai sobre nós
e aí se deita.

Há muito que meus olhos verdejaram
Há a memória ainda fresca desses verões
Quando os teus me ollaram e amaram
E em uníssino bateram os corações.

Ainda que a vida nos fustigue
E nada seja como dantes
O amor será sempre a verdade
que crepita nos nossos instantes.
Este mistério que nos causa saudade
Fogueira onde nos aquecemos
Verdor dum bosque onde nos perdemos
Amor feito desejos
vivos!
Sonho que não faz ruído
Meu coração e o teu cativos.
E as águas velozes correndo
no mesmo sentido.

Amo-te na noite em silêncio…

Amo-te na noite em silêncio
viajo p’lo teu corpo sem me deter

aquieto-me depois nesse abandono
e de prazer me deixo morrer.
Dos teus olhos surge meu dia
das tuas mãos a minha serenidade
das tuas palavras a magia
que lembram d’outros tempos de saudade.

Entre a felicidade surge incerteza
a vida nos parece ainda jovem
Bela é a sua plumagem…a beleza!
Mas já nos meus olhos chovem
águas precipitadas
como rio transparente.
Que foi feito do amor da gente?
Amo-te na noite em silêncio
meus lábios se encendeiam
faço o sonho acontecer,
enquanto teus braços me rodeiam…
Em delírio me deixo morrer!

Lembranças acaricio
nesta tarde de estio,
enquanto o sol se põe no poente.
Que foi feito do amor da gente?

O amor apenas vive enquanto queima
Quero voltar a ser tão tua como agora!
A vida foge, a vida teima,
de tanto olhar atrás passou a hora.
Instantes passados me vêem à mente.

AMOR…
Que foi feito do amor da gente?
Num último beijo me abandono
Na doçura da memória, aguardo o sono.

natalia nuno

a sombra da tua ausência…

O teu corpo é como se fosse
o meu único destino,
quando não sei
como encontrar-te.
O meu olhar te rodeia repentino
E no vazio do meu corpo
vou vivendo para amar-te.

Assim vou tropeçando e caindo
Neste destino cansado
E no meu peito sentindo
Este amor arrebatado.

Inquieta, cega
e desmemoriada
Teu corpo é minha terra, o meu mar
A luz dos meus olhos incendiada
És meu tempo, minha vida, meu respirar
Corro alegre na vastidão do Outono
Em plenitude e alvoroço
Iluminada me deixo ao abandono
Sou jovem, a desejar-te
Quando no silêncio te ouço.
No silêncio,
onde não sei encontrar-te.

A sombra da tua ausência
Deixa em mim!
Uma ferida em permanência
Uma inquietude sem fim.

natalia nuno

saudade é tormento…

anda a cotovia nos trigais

ando eu contemplativa

e as andorinhas nos beirais

numa roda viva…

respiro o aroma campesino

nuvens agrupam-se rendilhadas

viver de saudade é meu destino

que me traz recordações tão delicadas

neste idílio enamorada

lembro os campos da minha terra

a frescura e a fragrância

que pela aldeia se espalha

lembro a criança a jogar à malha

trago uma lágrima furtiva

desperta em mim um sublime sentimento

sinto-me viva…bem viva

mas a saudade às vezes é tormento.

 

natalia nuno

solidão…

a solidão, é loucura da mente
fica-se de peito aberto ao que vier
e os desejos que a alma sente,
o tempo acomoda,
e o corpo
que é flor bravia,
ama sempre que puder
o amor ilumina o mundo
e serena o coração
às vezes dói bem fundo
quando se desespera de paixão,
logo se abrem cicatrizes e
esfria o coração, a alma perdida
presos à recordação de dias felizes
continua a vida…e a bater o coração

 

natalia nuno

rumo…

lento outono, assim sou eu de verdade como folha caída ao abandono, no coração a nostalgia, saudade… tudo unido do princípio ao fim, da verde à amarelada folhagem, é assim hoje minha imagem, deixem-me em paz então, escuto o passado e o futuro neste pedaço de chão, onde a fé já esmorece e tudo se entristece… conforma-me, se o amanhã voltar, a noite, estranha doçura deixa, talvez a saudade a lembrar… em mim uma íntima queixa, difícil é o caminho, mas há que caminhar.

natália nuno

os dias da flor…

surgiu o dia em ebulição, aí senti um desejo doce, não era de vinho, nem de pão, mas a alegria obtida de me sentir de novo eu, do véu que envolve a memória trazendo-me o sonho, e de novo os dias da flor, eis-me viva com o peito a arfar, neste encontro com a que de mim se perdeu, e a manhã fica mais rosada e fresca a terra e o céu…é a recordação que sempre me acode. restitui-me um pouco de alegria enquanto a vida é neve ao sol….