os crisãntemos vão morrendo…

procuro apoio, o sono já me dobra
e o sonho já me convida
dou por mim jovem, sentada à lareira
e minha avó mexendo o café
na cafeteira…. o outono vai adentrando
como a querer chamar o frio,
e ela mulher do seu tempo
no rosto mantém o desgosto e
no olhar o vazio
assaltam-me as saudades destes momentos
dias cinzentos, com a chuva a bater no telhado
e eu com um ar descuidado, libelinha sempre
a crescer, na esperança de voar
tudo em meu redor se aquieta
apenas dos galhos secos o crepitar
lá fora os crisântemos vão morrendo
enquanto eu vou dizendo, o padre nosso a
avé maria, e minha avó agora o terço dedilha

acabada a reza, um ténue suspiro de alento
escutamos a noite e uma solidão sem par
no céu nem uma estrela, o povo recolhido
e eu desenho no bafo do vidro
sonhos de encantar
estou bem acordada ainda
e minha avó sempre com esta tristeza que não finda
degrada-se a lembrança do tempo que foi feliz
e como pomba sem ninho, a felicidade
ficou pelo caminho.
na parede quase nua, apenas um retrato
do homem jamais esquecido
em seu coração de sombra já vestido

à luz da candeia ali ficámos depois da ceia
mais um serão se passou e eu durmo na minha lembrança
adentro-me em mim mesma, vou onde posso sentir-me
escondo-me atrás das horas, deito a cabeça no regaço da avó
e nunca me sinto só……………….no sonho deixo-me afundar
e apalpo palavras para a saudade embalar…

natalia nuno
rosafogo

vou amar-te assim…

entra o sol pelas vidraças
sinto o calor quando me
abraças
o silêncio aumenta
à nossa volta
e o amor se solta
sinto teu coração bater
aos meus ouvidos
fecho os olhos
despertos tenho os sentidos
sinto o desejo a queimar-me
vejo que me olhas
de pálpebras semi-cerradas
o tempo não conta para mim
e a luz do sol é mais forte
vais amar-me
vou amar-te assim
até à morte

sem amor
a vida não tem significado
volto ao ponto de partida
ou terei sonhado?
sinto que o sol me aquece
ele que entra pelas vidraças
ou o calor será
porque me abraças?
ou serão imagens da minha
imaginação?
mas hoje o tempo não conta não!

natalia nuno
rosafogo

hoje espero a lua…

minha face é geografia
uma aprendida lição
a vida a mão me estendia
e à vida estendi a mão…

palavra é como fruto
quer-se bem amadurecida
é com ela que eu luto
trago-a da maldade despida

ser menina… se pudesse
uma vez, inda outra vez
meu coração envelhece
fecha-se na sua mudez

profundo é meu olhar
que perscruta os sinais
e de tudo o que restar
as lágrimas serão fatais

trago o tempo no rosto
coração cheio de esperança
anda a vida a contragosto
e eu levada nesta dança

meu dia fica cinzento
aguardo uma oportunidade
se a vida não traz alento
deixo-me a viver de saudade

se invento ou me invento
ou pinto de escuro a vida
há um dia que sempre tento
pintá-la… de côr colorida.

hoje espero a lua nova
para fazer versos outra vez
cego a noite c’ minha trova
e depois amor… talvez!

talvez que a noite seja nossa
como nunca antes tenha sido
talvez que a vida ainda possa
voltar amor… a fazer sentido

natalia nuno
rosafogo

longe de ser perfeita…

venho de longe, cheguei
trago minha alma acesa
ao cair da tarde oscilei
já dobrada na incerteza

vim do ventre da nascente
trago comigo a saudade
de todos fiquei ausente
num tempo já sem idade

no rosto trago a certeza
de que já mal me conheço
se um dia teve beleza?
ao olhá-lo me entristeço!

trago memória da viagem
e a esperança ainda arde
estandarte da minha coragem
se Deus ma deu me a guarde

fui começo e sou o fim
depois desta caminhada
já que o destino quer assim
seguirei a minha estrada

lembro bem de onde venho
mas não sei para onde vou
a esperança a que me atenho
… o tempo não esvaziou!

de flores ladeio a estrada
canteiro de rosas e jasmim
venho da terra semeada
lá atrás a chorar por mim

– trago traços de utopia
–  e longe de ser perfeita!
olhos marejados de maresia
a saudade em mim se deita

meu sonho então tropeçou
o olhar já pouco enxerga
a voz que não canta, cantou
mas a vontade não verga.

os versos são companhia
o espanto de querer viver
e a inocência se associa, a
esquecer, um dia, morrer.

natalia nuno
rosafogo
quadras feitas em viagem
5/2013

nosso amor é louco…

nosso amor é louco

Partilhamos silêncios!
a ele nos remetemos…
falo à toa…
mas, o silêncio que se abate
me magoa.
plantámos o jardim
na esperança de o ver florir
dissipam-se as brumas do desassossego
és alívio para o meu mal, a sorrir
numa flor pego
ligados pelo mesmo pensamento
surge um estranho fulgor no olhar
é hora de amar.

não é possível alterar
o curso do nosso rio
nem desviar dos olhos
lágrimas mornas e delicadas
nosso amor é velho como o tempo
tão velho como nossas passadas.
é velha canção de embalar
que levamos a vida a entoar
balada cheia de ternura
que cura a minha tristeza.
sou rosa caída no chão
te baixas a apanhar
a luz esmorece um pouco
a lembrar…a hora de amar.

nosso amor é louco
como um bater de asas
e estremecimentos
guardo ciosamente os pensamentos
o porquê do silêncio esqueço agora
meu corpo tremeu

Oh meu Deus…e o teu!

natalia nuno

escutando meus passos…

no sonho há aroma a magnólias
vindo do tempo, onde o tempo não contava
e o sol se aproximava de mim doce
abrindo a manhã como se fosse
a minha própria pulsação,
tempo sem tempo, cantava
um pássaro no meu riso
e habitava amor no coração.

estendo a minha mão
a esta vertigem que é sonhar
e é como se fosse o instante dum beijo
em que me olhas com um só desejo
a sede de possuir-me,
como vai longe a quimera
e eu na solidão, à espera…
no oásis da minha memória
ainda há uma busca indecisa
que meu coração precisa
que a ternura lhe seja entregue.

mas o tempo corre, segue,
e deixa apenas recordações
nuvens escuras, visões, mas uma claridade
indistinta, e um só pensamento sobre ti
dos momentos que vivi, e
uma derradeira saudade…um mundo de interrogações.

no coração trago a herança dos anos
e na boca arco-íris de sílabas que soletro
que são teias e outras favos de mel,
teço e desteço ilusões, enganos e desenganos
o amor e a desdita
que eu grito até ao fim,
ao fim da vida, ao fim da escrita.

trago em mim amarelas florestas de outono
no calafrio do meu corpo adormecido
no meu Deus supremo me abandono,
caindo assim, a minha metade
mais trémula no esquecido.

e fica a censurar-me esta saudade.

natalia nuno

aurora boreal…

Abria-se a escuridão da noite
nas ramagens o rumor do vento
ao abandono nossos corpos nus
numa entrega como flores ao relento
lá fora a vida levando sua cruz
tu eras o vento que me açoitava
o interminável sol que me aquecia
eu a flor que por ti brotava
feliz até ver nascer o novo dia
sempre o amor com intensidade
nas mãos hoje, gestos de saudade

Carícias como nuvens brancas perdidas
pairando sobre nossos corpos
depois a doçura dos silêncios,
das horas enlouquecidas
resta ainda uma indelével frescura
cascatas de risos e ternura…

cada dia mais viva esta magia
tanta era a emoção no caminhar
hoje a recordação em mim irradia
como a luz boreal que noite e dia
é presença ditosa no nosso olhar.

natalia nuno

neste mar embalador…

não sei das ondas que hão-de vir
nem sei para onde me levarão
mas se o coração partir
nem mais um ai me ouvirão,
ando neste mar infinito
ondas vêm outras vão.
em vão contra a tempestade
com o coração aflito
a morrer de saudade

ondas vão e outras vêm
trazem saudosas vozes de outrora
presa ao passado me têm
no sonho e na saudade agora
deixo-me ao sabor da corrente
outras vezes em mim me abrigo
e o passado se faz presente
e no sonho estou contigo

neste mar embalador
onde não somos indiferentes
na corrente vamos ao sabor
do amor, que sinto e tu sentes
brilha a chama no meu olhar
na minha boca há desejos
deixa as bocas de inveja falar
e enche a minha de beijos

trago o coração satisfeito
de ouvir somente o que dizes
quase não cabe no peito
por sermos assim felizes
ficam os olhos marejados
será a vida uma ilusão?!
os pensamentos fatigados
onde está a ventura então?

grito por amor em vão
daquele amor que me ofertaste
onde está a ventura então?
se ao sonho te negaste!

natalia nuno
2001/3

inquietação nocturna…

sou o aconchego do teu coração
sou a trave a que te encostas
eu te dou e me dás a mão
digo gosto…dizes gostas
sou o teu calor de inverno
e o teu luar de Agosto
é o nosso amor eterno
estrela para lá do sol-posto.
reforçamos sentimentos
cada dia mais lembranças
são violinos numa velha caixa
de madeira,
até que Deus queira

razão porque se caminha
a vida é nosso bem maior
apesar das adversidades
segue com nosso amor
um cálice, a transbordar de saudades…

…………………………………

os dias avançam e morrem
e o que fica neles de mim?
um avanço, um recuo
e uma melancolia sem fim
quando me tocas, ainda que seja com o olhar
deixo o corpo ao abandono
e de amor o coração deixo de novo inundar
recolho aos sonhos
e é como se me abrisses os braços
eu me perco para te encontrar
atravessas-me o coração que do teu
segue o compasso…o amor queima-me os dedos
e é já de madrugada, empalideço como a lua
esqueço o poema, esqueço que fui tua
sinto-me uma cana arrancada,
semente longe da raiz
ou estrela apagada,
tão somente a que tanto te quis.

natalia nuno